24 Outubro 2006

Campanha de Sensibilização para o Consumo Português

A AEP - Associação Empresarial de Portugal está a desenvolver uma campanha de valorização da oferta nacional de forma a sensibilizar a opinião pública para a necessidade do consumo de produtos nacionais.

Este assunto pode não parecer novo, mas se tivermos em atenção a conjuntura actual da economia portuguesa, vemos que este assunto é de grande revelância.
É através de campanhas como esta que se torna possivel sensibilizar não só o consumidor mas também os empresários e os trabalhadores do tecido empresarial português. É fundamental que as nossas empresas se tornem cada vez mais competitivas.

Assim, é de louvar uma iniciativa que pretende promover uma forma de consumir que valoriza a produção portuguesa.


01 Março 2006

É tudo uma questão de protocolo

Nunca tantas vezes, num tão curto espaço de tempo, ouvi evocar o nome dessa figura pitoresca do nosso jet-set: Paula Bobone.
Meu Deus!

Esta senhora, que se acha um master da etiqueta e do protocolo, até é assessora do Ministério da Cultura, dá aulas na Universidade Lusófona e organiza eventos. Mas caramba: com todos estes requisitos, de certeza que sabe mais do que os bitytes que manda sobre regras de boa educação (como vestir, como falar, como pôr uma mesa, e outras futilidades).

O protocolo tem muito mais que se lhe diga. Eu, só hoje, em meia dúzia de horas, já ouvi falar em protocolo político, militar, litúrgico, desportivo... Há tanta coisa interessante para aprender no protocolo e esta senhora só nos fala de fatiotas para as festas do pseudo jet-set. Como é que é possivel?!

08 Fevereiro 2006

O meu filme

Abro um olho. Ruídos, luz. Essa luz que eu observo e os sons que me chegam, ainda em estado de apatia.
Da janela do meu quarto observo a rua. Como é bom ficar na cama enquanto o mundo gira lá fora...
Estou atrasada! Um dia cheio faz-me sentir feliz. Um café... Recordo o seu cheiro. Esse cheiro que me acompanha pelo mundo. Um café e um bom livro por companheiro. Leio "O Perfume" enquanto a paisagem escapa num sussurro.
Dia novo, vida nova. O filme que tanto ansiava e um nervoso que me faz sentir bem.
Atravessamos a cidade e a fria manhã de Inverno dá-nos ânimo. Abrandamos. O cenário é o ideal. Um portão envelhecido e uma fonte. Encontramos o que procurávamos. Uma casa que parou no tempo e que transpira recordações. O trabalho chama por nós. Nem sentimos o tempo passar.
A pouco e pouco a noite cai. É hora de voltar. À cidade, ao café, aos velhos hábitos.
Mas espera! Acho que vejo aqui o filme que sempre quis fazer. Basta ouvir o que a cidade tem para me dizer.

17 Janeiro 2006

Bendita chuva

Qual é a chuva qual é ela
Que não chove no molhado?
Tenho andado a matutar nisto há já bastante tempo. Alguém me fez esta pergunta em jeito de adivinha e desde então que tenho reflectido sobre o assunto.
É de manhã. Levanto-me e subo a persiana. Uma luz cinzenta invade o quarto. Parece que vai chover. O trânsito caótico não vinha nada a calhar.
Arranjo-me num ápice e desço as escadas do prédio a correr. Já estou atrasada e ainda por cima já chove. E não tenho guarda-chuva.
Mas algo me faz parar subitamente quando abro a porta do prédio. Aquele cheiro maravilhoso a terra molhada invade-me e de repente faz-se luz: é este o cheiro da chuva que não chove no molhado.

Época de exames


Mais uma época de exames a passar, mais motivos de preocupação.
Não sei muito bem porquê mas, por muito trabalho que uma pessoa tenha durante o semestre, parece sempre que nada se compara à época de exames. Porque será que este mês custa sempre tanto a passar?
Em princípio nem devia ser assim. Ficamos em casa, quentinhos, sem termos de nos preocupar com horas, com o trânsito, com os prazos dos trabalhos; é só estudar. E mesmo assim parece sempre o pior mês da nossa existência. Na minha opinião isto é tudo um bocado psicológico.
De certeza que é melhor estar em casa a estudar matérias que até nem são tão más como nós as pintamos do que passar o dia numa universidade a rebentar pelas costuras, onde almoçar na cantina é uma verdadeira odisseia e tirar fotocópias uma empreitada digna de um qualquer Rambo erudito. E eu até nem tenho muita razão de queixa... Imagino é como será nas outras universidades espalhadas por esse Portugal fora.

02 Janeiro 2006

Vai um moscatel?

Na terça-feira de manhã, dia 13, para fazer frente ao frio na inauguração da sua sede de candidatura, em Setúbal, Jerónimo de Sousa repetiu uns quantos copitos de moscatel até ruborescer. Fosse da geada matinal, fosse dos vapores licorosos, o vermelhusco candidato à presidência justificou-se aos jornalistas. Era "para aquecer".
In Sábado nº85
Até parece que Jerónimo de Sousa é a única pessoa deste país a beber um copito de vez em quando. E ainda por cima uma bebida tão típica como o moscatel de Setúbal! Qual é o problema? Daqui a pouco entramos no puritanismo ridículo dos Estados Unidos, que crucificaram as filhas de George W. Bush por terem bebido uma cerveja aos 19 anos.
Será que Mário Soares, aos 81 anos de vida, nunca bebeu um copito de cerveja? E Cavaco Silva, com o seu ar austero, será que nunca provou uma gota, nem que não seja de champanhe, para festejar o Ano Novo? Poupem-me!
Pois eu brindo com uma mini a 2006 e ao final de tanta hipocrisia.

12 Dezembro 2005

Espalhem a notícia


Hoje recebi uma notícia fantástica. Uma colega minha de universidade, com quem convivo desde o 1º ano, acabou de ter um bébé.
Como um nascimento é sempre motivo de celebração, partilho convosco um poema fantástico de Sérgio Godinho, sobre o milagre da vida:


Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
espalhem a notícia
do que é quente e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse
Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher bonita
A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
o ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou
Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher bonita
Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós
Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher bonita

10 Dezembro 2005

Mãos

Uma sala. Muitas pessoas. A multiplicidade de cores e texturas chama a atenção. O espaço é sóbrio mas ao mesmo tempo moderno. A estrutura em madeira e as amplas janelas criam um ambiente acolhedor, com muita luz.
O conjunto humano é bastante variado. Um encontro de jovens é sempre palco de uma enorme variedade de estilos: do clássico ao dread, vê-se de tudo um pouco.
Ninguém se conhece. No entanto, identificamo-nos uns com os outros. Porquê? Um objectivo comum aproxima-nos: a mão-de-obra clandestina. É o tema do debate. Uma preocupação global devido aos últimos acontecimentos ocorridos com imigrantes clandestinos vindos da Europa de Leste. O tema é controverso e por isso, nos minutos que antecedem o início do debate, impressões são trocadas e a animação é geral. Vozes misturam-se num ambiente de convívio e descontracção.
No meio da confusão, algo chama a minha atenção. É ela. Acabou de chegar. De casaco verde e bonitos caracóis louros, segura, determinada, um caderno gasto que, pelo seu aspecto usado, parece ter muito a dizer. É lá que guarda tudo o que vê e o que lhe vai no coração. Mas parece confusa, perdida. Observa tudo o que a rodeia sem se misturar com ninguém. Parece querer avaliar primeiro e só depois tentar uma aproximação.
Mas a aproximação não veio. Sentou-se sozinha a um canto da sala e, para meu espanto, abriu o caderno e começou a escrever.
Que segredos estariam escondidos naquele caderno? Sonhos? Talvez. Esperanças? Muito provavelmente. Ou então apenas considerações sobre o mundo que a rodeia.
Não conseguindo conter a minha curiosidade, aproximei-me e sentei-me no lugar à beira do seu. Ela nem deu por mim. Estava completamente absorta nos seus pensamentos. E eu não resisti a dar uma olhadela à folha do caderno que ela tinha na sua frente.

Mão-de-obra.
Porquê mão-de-obra? Ao olhar as minhas mãos concluo que há muito mais a dizer sobre a mão do que simplesmente associá-la ao sofrimento de pessoas que deixam a sua terra natal em busca de um futuro melhor. E para quê? Para verem esse sonho roubado por um qualquer empreiteiro português que apenas quer mão-de-obra barata, ou por membros de uma máfia oriunda do seu próprio país que querem enriquecer à custa da desgraça dos outros.
Será que já alguém reparou na beleza de uma mão? E não falo só do aspecto visual, apesar de eu a considerar uma das partes mais belas do corpo humano. Falo da capacidade que uma mão tem de trazer a felicidade de muita gente.
Não é à toa que a mão foi imortalizada pelos maiores génios da pintura mundial. De Da Vinci a Miguel Ângelo, de Dürer a Picasso, foram vários os pintores que deixaram para a posteridade testemunhos da beleza de uma mão.
As mãos são de certa forma um espelho da alma. Dependendo da forma como as colocamos ou do modo como as movimentamos, podemos dizer muito acerca da nossa personalidade.
E haverá algo melhor que o prazer que as mãos nos podem proporcionar? É com elas que realizamos tudo aquilo que faz aparecer um sorriso na cara de alguém. Pintamos os mais belos quadros. Fazemos esculturas. Escrevemos o que nos vai na alma. Cozinhamos deliciosas iguarias. Massajamos as costas de alguém ou simplesmente tocamos a cara de quem mais gostamos.
E mesmo umas mãos calejadas, marcadas pelo trabalho árduo, podem ser belas, desde que sejam o reflexo de uma vida repleta de vitórias e de sonhos concretizados.
Porque as mãos são isso mesmo. São a forma de fabricar os nossos sonhos. De os tornar realidade.

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alácre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
PEDRA FILOSOFAL de António Gedeão

Sociedade Doentia

Quando o rapper americano Eminem rodou o teledisco da música Stan, em que alegadamente deixava a sua namorada abandonada na mala de um carro, não podia prever o que aconteceria quatro anos depois. Um jovem inglês, Christopher Duncan, confessou esta semana ter assassinado a sua namorada para imitar o seu ídolo. O homicida e a vítima, Jagdip Najran, conheceram-se num bar de karaoke, onde ambos cantavam músicas de Eminem.
In Sábado, nº84

Este caso é, no mínimo, surreal. Um teledisco que dá origem a um homicídio?! Parece-me um pouco forte. Mas pelos vistos a moda americana pegou. Justifica-se um crime hediondo com um vídeo-clip.
Analisemos o caso americano. Nos EUA, tudo é pretexto para pôr em marcha a máquina do pseudo-puritanismo, tão ao gosto do Sr. Bush. As criancinhas não têm culpa; os desenhos-animados/filmes/vídeo-clips é que as corrompem (?!). Se este caso se tivesse passado lá, não me admirava nada se alguém se lembrasse de processar Eminem por corromper a mente dos jovens.
Mas não será antes uma sociedade doentia, em que qualquer um tem acesso a uma arma de fogo, a responsável por tal calamidade? E depois admiram-se que um bando de adolescentes armados invada uma escola e atire sobre tudo o que mexe. A mim parece-me elementar, não?
Mas o grande problema disto tudo é que o mundo anda a ser arrastado por um país que se diz o mais avançado/democrata/liberal/blá-blá-blá mas que não é capaz de resolver os seus mais sérios problemas sociais. Só esperamos que a Inglaterra não lhe siga o exemplo em matérias desta natureza, tal como tem feito noutras áreas, porque corre o perigo de se tornar noutra Terra Prometida...